25.5.12

partilhas




Não, não irei partilhar mais músicas. Não mostrarei mais o que me faz sentir como me senti. Guardo-as para mim, fazem-me parte. Mas não adiantam, não são bandeiras que desfraldamos ao vento. As músicas que vivemos são para vivermos, não para nos manifestarmos. Ou talvez sejam. Também são, sim, manifestação, greve, revolução.

Mas não estou em revolução. E há sempre novas músicas para vivermos e nos fazerem parte. E as músicas também são esqueleto, pé, coração. São as pedras do caminho, o sol e os passarinhos. Somos nós, somos eu. Em partilha.
Ou não.




23.5.12

caraças



, pá, se eu hoje não dei por mim já por 3 ou 4 vezes com um sorriso alapado na cara.
Caraças, que não se percebe, hein.
Onde é que já se viu isto. Para o que me havia de dar.
Há coisas inexplicáveis, caraças.
Será do tempo? Das paredes brancas da casa por preencher de vida? Dos coentros? Das flores por todo o lado? Das sardinhas que estão quase aí? Das músicas descobertas? Dos novos livros que leio? Dos gelados? Do senhor do jardim?
Será das minhas pessoas, caraças?




não esquecer






de fazer planos para ser, e não para ter.










16.5.12

jeopardy





"Estado de uma pessoa a quem tão pouco importa uma coisa como o contrário dela."



Não me apetece. Escrever, visualizar, imaginar. Não quero pensar. Dá-me trabalho, pensar. Não quero aperceber-me dos pedaços de inverno em mim. Não me apetece ler. Nem ouvir. Não quero sentir.








cá dentro







É que mesmo com calor, mesmo com bons ares. Mesmo com a porta aberta e com canários felizes a cantar para nós. Às vezes, preferimos não sair da gaiola.




3.5.12

sparks






Os brilhos, os reflexos, as estrelas. Os restos de luz no fim dos dias. Os pedaços de brilhos, de reflexos, os pós das estrelas que deambulam, perdidos, por nós. Luzes difusas, jogos de claridades e escuridões. Iluminações indirectas. 
São só partes. Partes de nós. Incompletas. Pedaços de momentos bons, de momentos puros, de momentos verdareiros. Mas, pedaços. A fonte de luz, escondida. Ou talvez já desaparecida. A Anos-luz de nós, e nós sem o sabermos.




25.4.12

dormir



Não é pelos dias de sol, pelos feriados. Pelos jantares, pelos amigos. Não é pela acácia que vês ao fundo da rua, nem, sabe-se lá que mais.

Percebe, morrer é não ser visto
Foi o que aconteceu.

E agora não durmo, com medo de deixar de me ver.






21.4.12

you know, you











"can get addicted to a certain kind of sadness".
















18.4.12

série de


 
 
  



meu fogo.

 

11.4.12






dias que não valem

mesmo nada.

Especialmente depois de percebermos que era suposto valerem. 

Que 
podiam ter valido

a pena.















Há demasiadas coisas com gente por resolver.













10.4.12

ser humano




E é sempre, sempre, por aquilo que não aconteceu, que não fizemos acontecer. Da maneira que podiamos ter feito acontecer. De menos, fazemos sempre de menos. Percebemos de menos, também. Não o suficiente. Podiamos ter sido mais do que o suficiente. Mas nunca nos chegamos a (deixar-nos) transcender.

Amarramo-nos para não dar o braço a torcer. Braços torcidos. Todos, agora. Porque agora já não estamos, já não está a acontecer, já desaparecemos. Torcemo-nos de tanto não nos querermos torcer.

Deixamos de ser.
Continuamos o que não fomos o suficiente.


The moment's already passed
Yeah it's gone
And I'm not here
This isn't happening.




8.4.12

vícios




Se calhar são só coisas que se tornam em vícios. Como distinguir?

Como saber do que se sente falta?

Como identificar o que é um hábito e o que é, afinal, fundamental?

Afinal... porquê escolher.



2.4.12

és*







o meu último fracasso. Tornaste todas as minhas frases na forma negativa. E agora. A pergunta que fica, sem pontuação. Que fazer desta destruição de gramática. E a semântica. Que éramos. Significantes e conteúdos. Quem sabe agora o que se diz. Sem significados, sem pontuações, sem formas positivas. O que mais procurar. Para que lonjura caminhar. Quem sabe, em que música encontrar a prosódia certa. Sem interrogações. Não existe. Com interrogações. Existe.

Todos os finais chegaram sempre primeiro que eu. A gramática, a semântica, traiçoeiras. Apanharam-me pelas costas. Espremeram-me de significados. Esponja espremida, sem mais nada que possa escorrer. Pingar. Sem sequer um ponto de exclamação para dar.

Dói-me o pescoço. Pesa-me carregar esta névoa em forma de memória.






* com pedaços de letras, de canções.





1.4.12

série de





uma espécie de nevoeiro. Com um temporal por perto.
E tentar pedalar, ainda assim.




27.3.12

série de







  





mensagens escritas.




sala




Cada vez mais, os tempos atraiçoados fazem em mim o meu espaço cada vez mais meu. Esta terra, existir, neste espaço, nestas lâmpadas, cada vez mais meus. Caminho. Caminhos, eus. Os tempos, deixados, desleixados, abandonados. A almofada que foi, que já não é. Sei que existi nessa almofada, mas hoje, não sou eu. Não existo mais ali. Comigo, o que deixou de ser, o cessar abrupto dos dias e das coisas. Nas margens dos caminhos, pairam os porquês. Afasto-os com a mesma almofada. Que foi, que já não é. Eus nos cantos, nos tapetes, no regador. Dos frisos dos tectos, pendem os porquês. Afasto-os com as minhas pálpebras fechadas. Não olho, não vejo, não conheço. E o que oiço, nos líquidos destilados das garrafas, é um fantasma. Já não sou eu. Não lhe respondo. Tempo longo, atraiçoado e abandonado, preso na curva do caminho. Desse que não sei. Mas que no peso do tempo, parece meu.








"É engraçado constatar que os egoístas não sabem, nem querem, ficar sozinhos"









Será?
Serás?
Serei?
...E por aí fora?



26.3.12

esticar



O tempo é uma plasticina.

Denso, om cor, com cores, pardo. Pesado. Maleável. Moldável. E existe, sempre. Não desaparece. E, à vezes, distende-se. E é preciso deixá-lo distender. Esticar. Que se estique, que se torne muito grande, esperemos. Esperamos, enquanto percorremos lentamente toda essa massa de plasticina. Porque não há mais nada a fazer. Porque um dia, o tempo há-de ganhar outra forma qualquer.

Deixá-lo passar.



24.3.12

planeta calhau


Não sei de que planeta veio esta história. Sim, uma história.

Mal contada.

E no entanto, substituem-se os calhaus. Como um hábito. O passado quebra-se, apaga-se, desloca-se e deserda-se. (talvez haja algum problema de reconhecimento). Que fotografias são estas?

Esta é uma história mal contada.
Ainda por cima.

Calhau, calhau, atira-te. Não falhes.





"...throw it at your face so you can know how much it hurts..."
Não há memória deste discurso.