6.11.09
De repente, muitos minúsculos cristais atraíram o meu olhar para a janela. E era, afinal, chuva, e sol, e árvores, e aves, e estrelas, e o mundo a acontecer num momento.
28.10.09
* - 2009
Estranhos silêncios que se fazem ouvir, noite fora, no meu quarto. Já não há quem me acorde, durante a noite, de focinho pontiagudo virado para o céu.
2u
it just happens sometimes.
às vezes, por vezes, acontece. Acontece tudo num momento demasiado pequeno para tudo. Não entendes como, mas tudo é ali, naquele momento.
E.
Num momento, é demasiado. O peso demasiado, a raiva demasiada, os músculos demasiados. E sabes que é só um momento, mas ali, aquele, não passa, não desvanece, a fila não anda, as letras trocam-se, os semáforos vermelhos, e os acidentes que se sucedem de tantos azelhas que vês, não encontras o que tinhas mesmo à mão, e tudo, tudo, ali, e de repente, e se, se eu fosse fila fora, ou estrada fora, ou ravina fora, os azelhas que se aguentem e se o volume ficasse assim, tipo, sempre, no máximo, e se gritasse até a voz se for embora, e às tantas já não sabes mais para onde olhar, para quem virar costas, e tudo te aflige, e essa raiva que te consome, e esse demasiado de tudo momento. Que é só um momento, mas não passa, até todo o corpo te doer do peso desse momento nos teus músculos.
Pões mesmo o volume no máximo. E esperas que o mundo adormeça por ti.
22.10.09
15.10.09
silêncio aqui
Às vezes, sobra só o resfolegar das rotinas apressadas. E o esquecimento dos romances perdidos.
(na rua onde passo todos os dias, havia uma mulher estreita e um gato sinuoso pintados em redor de uma janela. Hoje, a parede estava pintada, e a janela tinha-se perdido na vulgaridade do rosa velho igual ao de todas as paredes.)
27.9.09
ramblin ii
E por isso acabo invariavelmente assim os fins de semana, a enfiar cá para dentro as coisas mais sombrias. Músicas, normalmente. E por isso acabo também por chegar até
Aqui.
ramblin
Há qualquer coisa de irresistivelmente atraente no nevoeiro da noite, no deambular errático dos corpos cujos copos já fizeram perder a limpidez da voz. Qualquer coisa de decadente nos bancos soturnos de um bar, qualquer coisa de solitária em ouvir a música que tocam, tentando esquecer o que nos arrependemos de ter vivido.
Há qualquer coisa de sonolento, de sorriso triste nestes sons que me são irresistivelmente atraentes.
Ecos em arcos. Distorção de fim de noite.
Não chegar a casa. Deixar de ter casa.
Deambular, só. Noite, só.
24.9.09
what
O quê?
O que é que está errado desta vez?
O que é que eu fiz, que pontapé dei no cú do mundo que o fez guinar para longe da sua trajectória imaculada?
Se mandamos sempre tudo às urtigas, propositadamente ou não, para que serve termos um vislumbre de como seria acompanhar esta trajectória perfeita do astro-casa? Não nos podíamos poupar a toda esta desilusão?
21.9.09
statement
Aviso já aqui, com as devidas hipérboles e exageros.
Que ver um velho é das visões que mais me pode comover.
Não explico.
Se por há muito ter encontrado nos olhos das minhas avós um brilho baço de solidão mesmo quando todos estávamos juntos. Uma solidão velada e escondida entre as rugas e as cataratas. Um estar só de saber que já não se pertence a este mundo que as ultrapassou, um não se habituar a já não pertencer a ninguém como dantes, ainda que durante tantos anos pertençamos a alguém, quando estamos juntos, quando temos filhos, pais, irmãos.
E é esse olhar indefinido no meio da rua, de passos incertos e sacos nas mãos grossas que me tira a respiração, por vezes. Sim, o mau feitio e os defeitos não se vão embora com a idade. Não enchamos a vida de demasiado lirismo.
Mas é o arranjar-se para ir ter com as amigas ao café, o cheiro a laca desprendendo-se dos cabelos brancos, penteados e aprumados.
É uma réstia ainda de vida a debater-se quando encontram as nossas mãos, olhares, sorrisos.
Por isso é que ainda hoje dei por mim a olhar para as velhas que passavam na rua, a tentar descortinar se alguma delas era aquela que levei ao banco no outro dia (pois, são as dores que não deixam andar, não, não tenho meninos nenhuns, é este o banco?), do Senhor Antero que me ligou no Dia de Natal sem eu lhe ter enviado sequer um cartãozeco de Boas Festas (estou sim, é a senhorita? quando tiver noivo tem que mo vir apresentar), ou da avó Elisa que tem confiança suficiente para pegar na minha mão, mesmo não fazendo a menor ideia de que sou a sua "neta pequenina".
Não faço ideia de quando se comemora o "dia dos avós", mas pergunto-me como será sentir esse brilho baço.
Tudo isto a propósito de pensar que quanto mais velho, mais importante. E mais rico. Tanta bagagem de vida...
be my mark
Antes ainda de o pensares, já terás sido pensado. Já terás deixado uma marca, antes ainda de quereres marcar.
As pessoas marcam-se. São marcadas. Servem para marcar outras de modos inimagináveis.
Tocam-se.
Cruzam-se.
Rodeiam-se.
Odeiam-se.
Zunem-se.
Afastam-se. Até que as suas marcas as façam juntar de novo.
13.9.09
a saber
I have this great little treasure. I know it's really only mine, and i wouldn't change it for anything. Or one.
3.9.09
sem espaço
No meio do mais insuportável barulho, submerso na imensa confusão, esconde-se o silêncio. Encontramo-lo de de repente, tal forma gritante que tudo se torna claro. Como numa explosão. Tudo cabe dentro desse silêncio, os grãos de areia, a sujidade, o sol, o cosmos. Encontro-te lá, também, em momentos vagos e suficientes. E a minha nitidez dilui-se, à medida que o caos me volta a puxar para si. E as pessoas tornam-se em borrões de fotografias tremidas.
Não tenho mais espaço para encontrar o tempo das palavras daqui.
vida simples
Apareceu mais ou menos como isto, em inglês pobre:
É como dizem, quanto mais adiante na vida vamos estando, mais simples se vai tornando a música. Mas e se a simplicidade estiver aqui agora, onde irá estar a nossa vida, lá adiante na música simples?
29.8.09
24.8.09
go get it
O que vale é que de tempos a tempos há um amiguinho qualquer que decide ir mudar de ares e contar tudo num blog...
Depois dos moçambicanos, cá está ele, the indian one.
Na lista do lado.
16.8.09
É desconcertante, parece-me. Insano. Dezembro. Anos banais. Mas únicos. Trautear coisas.
Ainda. Por vezes.
a naifa
A cinza dos cigarros e da morte, inequivocamente a mesma.
Tudo não serviu de nada. Sempre pensaste que todos os dias de sol.
Todos os copos. Os corpos. Os cigarros. Que a invisível poeira dos dias seria o essencial para a vida. Não foi. No fim da estação, à espera de um comboio que te arraste desta vida para outra, pensas como há batimentos do coração que nunca seremos capazes de fumar e deitar as cinzas para o lado, fazendo-as voar. Fazendo-as desaparecer.
E como sempre te apeteceu fumar um pouco mais.
E enquanto o comboio não chega (atraso de vida, sempre sentiste que a vida padecia de um atraso horário qualquer) lembras-te das músicas que ouvias. Nos dias de sol, a boiar dentro dos copos, a sair de dentro dos corpos. A voar pelos dias, como se as tivesses fumado e todos os dias deitado as suas cinzas fora, para voarem na essência da vida que queres agora fazer desaparecer.
